Para a minha doce alegria, decidi assistir ao último dia de exibição do documentário À margem do Xingu – Vozes não consideradas como parte da 35ª Mostra Internacional de Cinema. Quando cliquei para comprar o ingresso, foi justamente com a intenção de entender o que se passa em relação ao tal projeto de construção da Usina de Belo Monte. As sensações exploradas no espectador durante o filme são tantas que é impossível deixar o assunto de lado e não querer compartilhar informação, opinião, impressões e dúvidas. Por ter destinado este espaço a temas nas áreas social e ambiental, é considerável começar por aqui.
Cenas lindas em meio ao verde mostram a ligação que a população ribeirinha tem com o rio. É utilizado principalmente para a pesca e como meio de transporte. Sua existência permite que as ‘ecorregiões’ sobrevivam, ou seja, áreas verdes com caracaterísticas de floresta amazônica e de transição, o que denota a importância ambiental.
Mais do que explicar, o documentário deixa algumas reflexões aos espectadores com uma pergunta implícita. A pura e simples instalação da usina pode e deve gerar empregos, porém temporários. A partir de já, sabe-se que as promessas fúteis das empresas do consórcio de assumir um compromisso de que irá contratar mão de obra local não sairão do papel. Em outros cantos do país isso ocorre com a justificativa de falta de preparo. Claro, ora, como prometer que, em uma região de produtores rurais, saberão construir torres ou o que lá for necessário? E dizer que não sabiam disso? Quantas cidades do país não sentiram o impacto de grandes obras, recebendo pessoas de outros estados em busca de emprego? Não conseguem e ali ficam para tentar sobreviver. É o que pode acontecer no Xingu, contribuindo para o desmatamento ainda maior.
A angústia que fica, como paulistana que sou é ver empresários e políticos de SP, Rio de Janeiro e Brasília decidirem o futuro dos que lá vivem, no norte do país. E como paulistana, mais uma vez, me sinto envergonhada por testemunhar esse comportamento. Em um Brasil que um dia foi colônia, muitos brasileiros ainda veem o Amazonas e o Pará como sub-colônias. De lá retiram a riqueza natural e nada devolvem. Pelo contrário, vasculham mais para terem certezade que exploraram por completo. Nenhum plano de franco desenvolvimento, de ali se tira, ali se deposita. Hoje centenas de embarcações levam embora alumínio e tantos outros minérios para o mundo. A usina vai gerar eletricididade para baratear os custos das empresas que extraem estes materiais e para que possam lucrar mais com esse comércio.
E saber que uma cultura, um modo de vida e o curso de um rio que há milhares de anos cria suas espécies, passará a ser apenas um empecilho para um empreendimento que se sabe que será superfaturado, terá problemas futuros e, pior, exigirá a construção de outras barragens ao longo do mesmo rio, já previsto no projeto.
Não sou contra a barragem do Xingu pura e simplesmente pela preservação de hectares de vegetação ou de cerca de 20 mil famílias – localizadas apenas na Volta Grande do Xingu, onde será instalada a usina – que ao longo dele construíram suas vidas. Mas pela estupidez de pensar que construir uma barragem é a forma mais inteligente de gerar energia no país. Outras nações estão adiantadas na utilização de energias renováveis enquanto nós aqui parecemos fazer questão de ficar no atraso. Ambientalmente, uma usina pode não poluir tanto, mas é cara demais, principalmente em um governo carimbado pela corrupção.
O vídeo merece ser visto e ainda será exibido em outros pontos do país. A impressão que se tem é que o filme reuniu as ínumeras vozes que não eram ouvidas e ganhou força. Assim espero.
Os estudos de impacto ambiental não mencionam as famílias que terão que ser reassentadas. Mais uma vez, não se trata de um caso isolado de relatórios infundados que parecem ser liberados para se livrarem de alguma pressão – ou sei lá se por favores que ninguém sabe. Por que liberam? E aí temos que recorrer a organizações internacionais para resolver a balbúrdia interna. Todos falam e ninguém ouve. Infelizmente, as obras já começaram, mesmo com a imposição da Organização dos Estados Americanos (OEA) de que o projeto fosse interrompido até que o governo brasileiro ouvisse a população indígena. Sequer o Brasil participou de uma reunião recente com a OEA para discutir o assunto, como contou a coordenadora de produção (se não me engano) após a exibição.
A vergonha foi solidária na sala durante o mini debate. Soubemos de outros problema idêntico que se passa no Paraná, relatado por uma professora. E eu nem sabia que existia o Movimento dos Atingidos por Barragens. A mesma Eletronorte, vencedora da licitação da Belo Monte, ainda não ressarciu, nem resolvou problemas de outra usina conhecida no Pará, a barragem de Tucuruí, no rio Tocantins.
E no final de tudo isso, aquela pergunta implícita, que comentei que o filme deixa, é de qual sistema queremos, em qual sociedade queremos. Modelos de vida das grandes cidades do Sudeste são replicados lá em cima como se fosse tudo igual, quando adora-se dizer que somos um país de proporções continentais. Não há diferenças culturais em um continente? Mais uma vez me senti envergonhada pelo modo de vida que a gente leva. Não gosto de ser levada a consumir, a escolher por marca e a ser levada a acreditar que aquele novo produto será indispensável na minha vida a partir de agora. Vai me fazer pensar como se vivia antes sem aquilo. Você aí deve dizer: “então o que tá fazendo aqui? Por que não vai embora?” Porque tenho minhas raízes – leia-se família – aqui. Porque apesar de odiar essa vidinha urbana de segunda a sexta, respeito e admiro a história da cidade de São Paulo e dos milhares de brasileiros que se tornaram paulistanos de coração, ou ao menos de bolso. Para a minha satisfação, há meses não pisava em um shopping. Fui em um hoje só para comprar um suco porque não havia mercado tão perto. Não faço questão de ter um carro e crio coragem para andar de bicicleta e sair de frente da TV para ler minha fila de livros.
Mas é fato que a gente leva uma vida desregrada enquanto consumidores, enquanto gente que rala e não quer saber se o índio lá em cima vai ficar sem a sua oca, enquanto pouco gentis no estresse diário, enquanto brasileiros que só assume o que é pra inglês ver. Se eu quero o Xingu correndo livre, quero também ser livre, mas agindo de forma coletiva.
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